15
Rocco diz:
acordada essa hora?!
Luise diz:
eu sempre to... mas e vc?!
Luise diz:
o q tah fazendo essa hora na net hein menininho?!
Rocco diz:
sem sono...
Rocco diz:
resolvi ver qual a graça disso...
Luise diz:
do q?
Rocco diz:
ficar a noite toda olhando notícias... vasculhando a vida dos outros...
Rocco diz:
essas coisas
Luise diz:
hehehehe
Luise diz:
sem sono pq amore?
Rocco diz:
acordei no meio da noite... não sei pq...
Rocco diz:
aliás... sei muito bem!
Rocco diz:
por causa do lixeiro
Luise diz:
tah apaixonado por um lixeiro?! (hehehehe)
Rocco diz:
...
Rocco diz:
a empresa da rua de trás...
Rocco diz:
os caras vem recolher o lixo de madrugada
Rocco diz:
fazem mó barulho... e eu sempre acabo acordando esse horário...
Rocco diz:
ae tem noite q eu perco o sono totalmente.
Luise diz:
fica pensando... rolando na cama de um lado pro outro...
Rocco diz:
bem por ae...
Rocco diz:
ae pra não acordar a Carol... eu resolvi descer hj...
Luise diz:
ai q lindinho!
Luise diz:
eh isso ae...
Luise diz:
eh horrível ter alguém rolando na cama a noite inteira...
Luise diz:
Eu simplesmente não suporto...
Luise diz:
Quando eu tava em...
[Bla bla bla bla bla bla]
Luise diz:
e eu sempre morria de raiva!
Luise diz:
Rocco?!
Luise diz:
dormiu?!
Luise acabou de pedir a sua atenção!!!
Rocco diz:
sim, pois não?!
Luise diz:
pensei q vc tinha dormido
Luise diz:
q q vc tava fazendo?
Rocco diz:
olhando o google earth
Rocco diz:
vc jah parou pra pensar se realmente todos os lugares q tão no globo existem de verdade?!
Luise diz:
?!
Rocco diz:
tava olhando as fotos de alguns desses lugares q eu duvido q existam.
Luise diz:
aff...
Luise diz:
vc eh realmente um cara diferente...
Luise diz:
e q email foi aquele do “leite paulista”
Luise diz:
hahahhahahah
Luise diz:
q brisa hein rapaz!!!
Rocco diz:
ontem eu fui almoçar na casa da mãe da Carol.
Luise diz:
em plena segunda?!
Luise diz:
q vidão!!!
Rocco diz:
Luise... eu ainda não durmi... e o sol ainda não nasceu
Rocco diz:
portanto, ontem, foi domingo!
Luise diz:
claro q vc dormiu! q q vc tava fazendo antes de entrar na net?!
Rocco diz:
eu não acordei ainda...
Luise diz:
Acordou sim...
Rocco diz:
tah bom tah bom! c entendeu....
Luise diz:
tah... continua
Rocco diz:
brigado hein!
Rocco diz:
então...
Rocco diz:
deu moh briga feia entre eu e a velha...
Luise diz:
e qual a novidade?
Rocco diz:
nenhuma... tudo igual... e esse eh o problema!
Luise diz:
vc queria q a mulher tivesse partido pra cima de vc?!
Rocco diz:
num eh isso... o problema eh q não era isso q eu esperava da vida!
Rocco diz:
passei tanto tempo... quase minha juventude toda
Rocco diz:
esperando q as coisas acontecessem
Rocco diz:
e nada aconteceu....
Rocco diz:
pelo contrário... foi tudo ficando chato e igual... tudo normal de mais!
Luise diz:
ué Rocco... c tah ficando velho! o tempo tah passando....
Rocco diz:
velho?! c tah loka?!
Luise diz:
ai Rocco... não eh velho de veeeeelho....
Luise diz:
soh q vc não tem mais 20 anos neh?!
Rocco diz:
eu disso!
Rocco diz:
mas não quer dizer q eu morri!
Luise diz:
esse eh o normal da vida!
Rocco diz:
e esse eh o problema! eu não sou normal!
Luise diz:
nisso vc tem razão.... hehehehehe
Rocco diz:
to falando serio....
Rocco diz:
pegaram tanto no meu pe....
Rocco diz:
c precisa de uma profissão
Rocco diz:
de um emprego...
Rocco diz:
de uma mulher...
Rocco diz:
de filhos...
Rocco diz:
“c precisa ser mais normal!”
Rocco diz:
eu virei um normal, Luise!
Luise diz:
e não eh o q vc queria?
No fundo ela tem razão... eu lutei por isso muito anos...
Rocco diz:
ai Luise... eu não to bem!
Luise diz:
muda tudo!
Rocco diz:
não eh simples assim!
Luise diz:
claro q eh... eh soh querer!
Rocco diz:
então... esse eh o problema!
Luise diz:
...
Rocco diz:
Eu acordei e fiquei olhando a Carol dormir!
Rocco diz:
Eh a coisa mais linda do mundo...
Rocco diz:
Indefesa....
Rocco diz:
doce...
Luise diz:
meu amore... c tah apaixonado... e com medo de levar uma bica....
Luise diz:
eh soh isso...
Rocco diz:
num vem com essa psicologia de buteco não!
Rocco diz:
sabe.... ela tah ali...linda... competente pra caramba....
Rocco diz:
e tah sofrendo por causa dessa relação...
Rocco diz:
ela tb não eh feliz
Luise diz:
bom... ae eh vc q tah dizendo....
Rocco diz:
eh verdade!
Rocco diz:
Ela se apaixonou por um cara dinâmico... disposto.... divertido...
Rocco diz:
E agora tah com o fã número 1 do animal planet!
Luise diz:
Auhauhauhauhauhuahuahuhauah
Luise diz:
Uhauhauhauhuahuahhuahua
Luise diz:
Como vc pode dizer q não eh um cara engraçado?!
Luise diz:
Uhauhuahuahuhauhauah
Rocco diz:
Para de rir menina!
Rocco diz:
Mais uns anos e eu vou precisar de uma cadeira de rodas soh pra minha barriga!
Luise diz:
Uhhhhhhh uuhauhauhauhauh
Rocco diz:
PARA!!!
Luise diz:
Parei.... parei.... parei!
Rocco diz:
Não sei o q fazer....
Luise diz:
Oooo doh!
Luise diz:
Meu lindo...
Luise diz:
vc pensa demais....
Rocco diz:
...
Luise diz:
isso não eh ruim, lindo!
Luise diz:
eh soh um jeito de ser!
Luise diz:
e esse eh o seu!
Luise diz:
eh a sua missão aqui... eh o obstáculo q vc veio superar!
Rocco diz:
...
Luise diz:
vc tem q parar de pensar tanto!
Luise diz:
viva a vida, meu caro! viva a vida!
Luise diz:
se essa eh a maré... se joga...
Luise diz:
tenha coragem de deixar isso t levar...
Luise diz:
nadar contra... soh vai t levar pro fundo do rio!
Rocco diz:
mas esse não sou eu! Essa vida não eh a minha
Luise diz:
então cara... seja homem e va atrás do q vc quer!
Luise diz:
Vai atrás do rio q vc quer se atirar!
“Seja homem” – Bem apropriado vindo dela!
Luise diz:
as vezes eh preciso estar parado para ver como as coisas se movimentam de verdade!
Luise diz:
c ta muito agitado.....
Luise diz:
soh vai confundir tudo e fazer merda!
Rocco diz:
parece interessante essa idéia de estar parado....
Luise diz:
quer encontrar a saída?!
Luise diz:
suba no monte mais alto da cidade...
Luise diz:
soh de lah vc verá todos as portas.... soh de lah!
Rocco diz:
vc tem razão, sabe....
Rocco diz:
vc tem razão
Luise diz:
eu sempre tenho, amore!
Luise diz:
vou dormir q amanha eu trabalho!
Luise diz:
baccios!
Rocco diz:
durma bem, meu anjo....
Rocco diz:
durma bem!
Escrito por Renato Mullinari às 19h50
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14
- “Carol! Telefone...” - “Já vou Rocco, atende pra mim...” - “Mas não é pra mim.” - “Como que você sabe?” - “Ninguém me liga em casa... Deve ser a chata da sua mãe.” - “ATENDE PRA MIM, ROCCO!”
(...)
- “Oi, alô?! Oi mãe...” (Te mato, Rocco!). - “(...)“ - “Não... eu ouvi sim, é que eu tava na cozinha.“ - “(...)“ - “Não... ele não tá.” - “(...)“ - “Não sei mãe... ele saiu... mas acho que já está voltando.” - “(...)” - “Não mãe... a gente não vai demorar. To terminando de me arrumar e o Rocco logo ta aqui de novo. A gente já ta indo.” - “(...)” - “Você também, mãe. Beijo.”
Paradinha estratégica, na minha frente e com a mão na cintura. Do tipo que quer meter medo em alguém. Sabe como é né... essas coisas de mulheres.
- “Qual o seu problema?” - “Nenhum...” - “Por que você não atendeu o telefone pra mim?” - “Exatamente porque era pra você.” - “E como você sabia, Rocco?” - “Ah, Carol. Já disse... ninguém liga aqui em casa pra mim! Que saco!” - “Eu to falando com você!” - “É eu sei... to escutando ainda...”
Escapada estratégica pela varanda... opa... trancada... pela cozinha, então! Merda!!! Trancada...
- “Não adianta você ficar andando prum lado e pro outro!” - “Que droga, Carol! Eu tava sentado, na minha... tentando pensar e você fica me torrando!” - “Pensando no que, Rocco?! O que você pensa tanto que não pode atender o telefone pra mim?!” - “Ai ai...” - “Me reponde Rocco!” - “Hummmm... se fica tão linda nervosinha assim...” - “Sai Rocco. Você não me leva a sério nunca!” - “Mas por causa de um telefone, Carol?! O que tá acontecendo?!” - “Nada Rocco... só que um dia você vai se arrepender!” - “Do que, meu anjo?!” - “Para de me tratar assim... e dá licença.” - “Toda...” - “Me larga Rocco! Me larga...” - “Ai ai...”
Sossego... tá nervosa mas pelo menos vai me deixar em paz.... De volta a programação normal: “os ornitorrincos são seres muito exóticos. Eles são encontrados, geralmente...”. Ahhh, o animal planet... Que canal! Que canal!
- “Cê já vai deitar de novo?!” - “Carol... eu quero descansar!” - “Do que, Rocco?” - “Putz... mas você tirou o dia pra me irritar mesmo, né não?!” - “Você está ae nessa droga de sofá, imóvel, o dia todo!” - “É isso que eu gosto de fazer no meu domingo, Carol! Você gosta de ir pra casa da chata da sua mãe... e eu gosto de ficar mofando no meu sofá! Qual o problema?!” - “O problema? O problema?! Você é o problema!” - “Pin, pin, pin... primeiro round! No canto escuro, de avental e um olhar fulminante... Carol!!!” - “Você tem quantos anos, Rocco... vê se cresce moleque...” - “Agora você vai me deixar falando?! Ué?! Você não queria discutir? Vamos discutir então!” - “Me deixa em paz, Rocco!” - “ME DEIXA EM PAZ?! Eu tava quieto no meu canto claro, de bermuda e olhar perdido e você chega me agredindo... e agora você quer paz?! Você que começou!” - “Eu só pedi pra você atender a DROGA DO TELEFONE!!!” - “Você quer um secretário então?! Não... porque você sabia que só poderia ser a chata da sua mãe, perguntando que horas a gente vai chegar... e mesmo assim você queria que eu atendesse o telefone... fingisse que eu gosto dela... esperasse ela me tratar mal... e depois passasse a DROGA DO TELEFONE PRA VOCÊ!” - “Sai daqui... eu não quero falar mais com você!” - “Não... vamos conversar agora! Você não queria brigar?! Vamos brigar, Carol!” - “ME DEIXA EM PAZ!!! Sai daqui...” - “...” - “Olha... eu não tenho culpa que vocês não se dão bem!” - “Quem não tem culpa sou eu! O que eu fiz praquela louca?!” - “Não fala assim da minha mãe!” - “Ta bom, Carol... ta bom.... Mas o que eu fiz pra ela... prela me tratar dessa forma? Nasci?!” - “Rocco, não é assim... ela só está tentando fazer o que ela acha melhor pra mim!” - “Ah... então tá tudo esclarecido.... porque você não disse isso antes... o problema todo é que EU NÃO SOU BOM O SUFICIENTE PRA VOCÊ!” - “Eu não disse isso, Rocco...” - “Não não... foi sua mãe que disse.” - “Pelo amor de Deus Rocco... para com tudo isso! A gente pode ficar um final de semana em paz?!”
Dá pra acreditar nisso?! Se eu não escrevesse as coisas... eu iria realmente pensar que eu que tinha começado essa discussão! Que no caso, foi o que aconteceu: acabei agradando ela. Eu tenho esse problema... eu me perco nas discussões... Nunca sei quem começou e quem que tem a razão!
- “Olha Carol, eu realmente não gosto de ir pra lá. Mas você gosta e tudo bem... Desculpe por ter gritado... mas, pra mim, essa história da sua mãe não é fácil.” - “Ta bom, Rocco... se acalma. A gente vai... fica um pouquinho e pronto... não precisa ficar nervoso por bobeira. Vou terminar a torta e a gente já sai.” - “Ta bom.”
Eu tenho vontade de gravar minhas conversas... eu acho que isso ajudaria muito no meu relacionamento e na minha sanidade mental! As vezes me parece que to ficando louco.
Domingo legal... começou com suco de laranja gelado e beijinhos na cama e ia terminar com ela mau humorada e várias geladas na mesma cama, passando, claro, por várias indiretas e focos de discussões na porcaria do almoço de domingo. Nada fora do normal, não fosse o fato de eu ter chamado a mãe dela de ridícula. ISSO muda tudo. TUDO.
Esse foi o DOMINGO 01.
Escrito por Renato Mullinari às 11h54
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13
Que remédio ruim. Merda! Odeio essas porcarias... elas só servem para te devolver pruma situação que você já se encontrava antes. Um puta dinheiro gasto pra você voltar ao normal. Não gosto de estar doente... mas isso é outra coisa.
Peguei uma droga de gripe depois de ficar horas de pé na chuva... na porta da casa da mãe da Carol... Ela não queria papo... e de alguma forma eu queria irritá-la por isso! Espero que ela tenha ficado bastante irritada... porque eu fiquei doente que dá até dó.
Que remédio tomar quando ta tudo normal?! Perdi a porcaria do meu pulso... ele insiste em pulsar junto com o de todo o resto do mundo! Alguém já inventou remédio pra isso?!
Me peguei sonhando com casa, família... filhos... um trabalho digno e medíocre... em que eu tivesse reconhecimento... mas não muito... em que eu tivesse responsabilidade... mas não muito... pra dar tempo preu voltar pra casa e ver na TV tudo o que as outras pessoas podem fazer de legal com a vida delas e como elas se ferram na maioria das vezes. Nunca vi notícia dos “normais” na TV e isso quer dizer que elas não se dão tão bem... mas também não se ferram tanto! Quando isso acontece é algo tão fora do comum que é normal aparecer alguma coisa. Mas presta a atenção: quantas pessoas normais existem e quantas aparecem no jornal? E quantas diferentes existem e quantas aparecem se enroscando?! É uma questão de probabilidades... sei lá... esse tipo de coisa que passa na cabeça. Tava tudo tão claro na cabeça. Queria ser melhor que meu pai... mas não muito. Estar ali... na média... comum... normal. Arrumei mulher... casa... emprego... todas essas coisas chatas. Dívidas fazem parte... eu as teria de qualquer forma... hehehehe O interessante era ter toda essas merda e não me sentir parte de nada. Forcei tanto a situação que já tava com essa mecânica na cabeça... não precisava nem pensar mais... pra querer ser tão igual quanto todo mundo é.
Passou do limite... e sabe como é neh... a diferença de remédio e veneno ta na dose: eu usei tanto remédio pra ficar normal que tomei uma overdose. É isso... remédio só existe pra te deixar normal... eu tava ferrado: eu era o cara mais normal que existiu!
Pra deixar de ser normal não tem remédio... pra deixar de ser normal cê tem que inventar uma guerra... contra você mesmo.
Foi exatamente o que eu fiz. Normal é o car@#$%!
Eu tinha que começar por algum lugar... comecei por onde eu via os pilares da minha normalidade: a Carol... e a completa-belezura (hahahaha, salve mamonas) do meu trampo. Não que eu não gostasse dela... na verdade eu a amo com tudo que existe dentro de mim... o que eu odiava era a porcaria da instituição “Relacionamento” que a gente deixou tomar conta do que havia entre nós.
Como toda guerra... eu precisava de estratégia... persistência... disciplina... precisava minar a força do inimigo com ataques sistemáticos e eficazes: joguei meus ternos fora... todos! Na verdade eu fiz uma grande doação... tenho que confessar... não conseguiria ser tão rebelde assim logo de cara... mas juro que quis por fogo naquela porcaria toda. Comprei mais jeans... um par de AllStar... um mp3... tosei o cabelo e joguei meus barbeadores fora. Isso seria o bastante para uma agressão precisa e sistemática... nada demais... que pudesse afetar outras pessoas. Tirei poeira do meu saco de ironia e fui trabalhar. Começar o ataque por onde seria mais fácil. Onde tinha menos coração envolvido.
Fase 1: Me livrar do trampo!
Escrito por Renato Mullinari às 16h47
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12
Quis voltar umas três vezes e falar tudo que tava entalado na garganta! Depois que eu fechei a porta sabia que não tinha mais como... Às vezes, quando a gente toma uma decisão a gente tem que sustenta-la até o fim. Não sei porque... mas sinto essa necessidade de blefar... acho que até pra poder testar até onde vai minha influência... parece que dessa vez eu perdi feio! Tenho que confessar que quando cheguei na esquina pensei em voltar! Fiquei parado ali encostado naquela árvore enorme... na verdade eu cheguei até a sentar em uma das raízes... ela é realmente muito grande e antiga... daquelas árvores que as raízes são tão grossas que parecem um banco. Eu sabia que ela ia sair logo depois de mim... Fiquei ali sentado até que eu vi o carro descendo... tenho certeza que ela não me viu mesmo! Mas eu fiquei ali... num misto de covardia e raiva, imaginando N cenas em que eu falava várias coisas extremamente profundas e fazia ela perceber o quanto poderíamos dar certo de uma outra forma... mas.... tudo ficou na minha cabeça mesmo. Não sei o quanto estou preparado para ser a companhia de alguém, mas ninguém pode dizer que eu não tentei. Não deu certo... e insistir nisso talvez fosse um grande erro... pra mim e para ela. O melhor mesmo é arrumar outra coisa pra tentar ser. Vivo tentando ser as coisas que parecem boas para outras pessoas. Normalmente acabo descobrindo o que não sou, o que já é uma grande evolução para um cara como eu. Não sei exatamente como ser... ou o que sou... ou exatamente de onde vim... Sempre acabo me metendo em novos caminhos: é o meu jeito de descobrir para onde estou indo: a técnica da negação. Ouvi um doido uma vez falando sobre isso na televisão: a formação da identidade. Segundo o “renomado pesquisador da universidade de sei lá o que da onde” as pessoas criam a identidade por osmose.
Osmose... bah.... Tem realmente muita gente que pensa demais!
Aparentemente isso tem até um certo sentido... o problema todo dessa idéia está no fato de que só se troca (osmose) o que se tem. Pensando bem... pode ser que existam os que tem realmente personalidade de sobra e outros (como eu) que só sugam isso. Se existem pessoas assim... com personalidade sobrando... a Carol é uma delas. Ô mulher difícil.
De qualquer jeito... fechei a porta já me arrependendo. Odeio essas decisões assim: oito ou oitenta. Prefiro uma boa conversa que sair na porrada, e hoje, de um jeito ou de outro, eu forcei uma disputa... uma guerra fria e não assumida, para provar quem é o melhor... quem será o último a correr atrás. Entrei numa batalha perdida... sabemos quem é o melhor nisso, não é?! Ela não viria atrás de mim e eu, preciso desesperadamente da personalidade que ela tem de sobra para eu poder me alimentar um pouco. Sem ela eu volto a ser o espelho ambulante de sempre. E isso pra mim é o fim!
Todo relacionamento tem um quê de parasitismos em mão dupla... querendo ou não, sempre tem um que depende mais... e geralmente são esses que saem machucados.
Escrito por Renato Mullinari às 14h37
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11
Involuntariamente, todas as vezes que penso em paulistas ou ouço a palavra “Paulista” nunca me vem à mente a cena de uma avenida larga, rica e imponente como qualquer outra importante avenida de uma outra importante cidade. Tampouco vejo mulheres de saias modernas, com modernos cortes de cabelo e devidamente maquiadas às sete da manhã. Não... não vejo importantes empresários em seus ternos de fina costura e gel na cabeça, sentados tomando importantes decisões em seus escritórios no topo da cidade. Tudo que consigo imaginar é um saquinho de leite, tipo C, devidamente molhado em minhas mãos. Não penso nisso sempre, afinal, não existe nada no mundo além daqui. Aliás... nada no MEU mundo! Tudo é São Paulo... ou colônia dela. Peço a compreensão dos possíveis moradores de outros lugares! Vocês também devem pensar como eu: só existe São Paulo no mundo! A diferença toda é que vocês a chamam de outro nome... isso é.. caso vocês realmente existam. Cada um aprende um nome diferente para o mundo em que vive... no meu caso, São Paulo, e portanto sou Paulista. Pensar nisso é realmente difícil... Só sou Paulista quando não estou aqui, e isso é bem difícil acontecer, mas quando acontece é algo tão fora do comum que as vezes me pergunto se a situação não é só parte de um sonho, tamanha a incompatibilidade com o comum que geralmente sinto. Pode parecer extrema loucura, mas chego a duvidar da existência de outros “mundos” pelo fato de tudo parecer uma grande ilusão. Para mim, o noticiário da TV e aqueles que aparecem em filmes são quase iguais: distinguem-se pelo exagero proposto hora por um, hora por outro. Estou até que bem adaptado ao meu mundo “virtual” (“Virtual” porque até o meu próprio mundo às vezes não parece real). Talvez por isso teime em acreditar na existência de outros. Hoje em dia (se é que existiu o “antes”) está tudo tão virtual que me perco quando tenho que lidar com o que é real. Se é que realmente exista algo real. O fato é: penso pouco sobre ser “Paulista” porque só penso nisso quando não estou aqui, e sempre, sempre mesmo, estou aqui. Mas quando penso em “Paulista” sempre me vem a imagem do saquinho de leite gelado do tipo C.
Talvez isso altere completamente a forma como vivo!
Talvez o fato de me sentir, mesmo que em um nível profundamente inconsciente, algo sem cor definida, totalmente adaptável ao ambiente posto, porém, sem se misturar e, sempre preservando a característica de frio e escorregadio, me faça ser a representação viva do saco de leite. De vez em quando tenho a impressão de encontrar até uns tipos desnatados por ai. Esses que todo mundo diz engolir, mas no fundo ninguém gosta realmente. Chego a pensar que possivelmente todas as características de toda a população de um Estado estejam profundamente ligadas a um trauma infantil envolvendo o tal leite. Evito comprar essa tal marca. Mesmo hoje em dia, em que ela é vendida nessas caixas igual leite gringo. Isso só me faz lembrar ainda mais que somos todos retirantes com ar de nova-iorquinos. Bah.....
A vida imita o leite... ou o leite imita a vida?!
Escrito por Renato Mullinari às 10h57
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10
Passei um pouco da conta e confesso. Digamos que poderia ter parado antes, mas não tinha muitos motivos pra voltar pra casa cedo. Com certeza a Carol não vai estar em casa e quando ela chegar nem vai notar: tomo um banho antes. Com certeza vou dormir que nem um anjo... Faz tempo que não bebo tanto assim! Já tinha até esquecido como era! Parece piada! Em todo lugar a gente vê essas imitações de bêbados tentando colocar a chave na fechadura e acha a coisa mais ridícula do mundo. Não me lembrava de ter tido esse problema nunca, mas hoje eu realmente tava encrencado! Tentei umas 4 vezes... a situação tava tão ridícula que eu não agüentei e comecei a rir sozinho sentado na varanda. Pela primeira vez eu estava consciente que estava bêbado! (Ã?!) E isso soa estranho demais. Meu corpo tava pesado... Meu estômago tava ruim... Eu tava morrendo de sono e simplesmente não conseguia entrar em casa. Tudo que eu tinha era a droga do balanço da varanda. Comecei a lembrar de vários bons motivos preu ter chegado onde cheguei. Tudo que não tinha... Tudo que não era... O homem que não conseguia ser! Todas as ATITUDES que ela queria que eu tomasse e eu simplesmente não conseguia: “Intenção não é nada, Rocco! Nada!!! O inferno está cheio delas lá! Blá Blá Blá. Você tem que amadurecer, Rocco! Blá Blá... Seja Homem!” Minha cabeça tava doendo horrores... e tava com uma sede de matar. Acho que acabei dormindo em cima da mão e não conseguia senti-la muito bem. Dei uma chacoalhada pra tentar resolver, o que acabou dando certo. Uma última tentativa... e.. Bingo! Chave na porta... porta aberta... geladeira... água... e direto pro chuveiro! Que sensação maravilhosa de chegar em casa. E melhor ainda era ver o meu motivo de sair de casa, todo dia, dormindo feito um anjo! O cheiro de perfume de mulher... os lençóis... o quarto escuro, meio iluminado pela luz da rua. É impressionante a sensação de paz que isso me dava. Tudo certo... não importava o que tivesse acontecido antes... tudo mudava quando eu chegava em casa. Era o meu refúgio de paz. A Carol deve ter voltado mais cedo. Ela sempre atrasa quando sai assim pra viajar. Ela viaja muito... e já estávamos acostumados com todos esses atrasos dos vôos. Talvez por ser uma quinta à noite as coisas estejam mais calmas. O importante é que ela nem se mexeu. No sentido figurado é claro. A Carol se mexe demais a noite. Quase todo dia ela acorda praticamente em cima de mim. Isso quando ela não rouba toda a coberta e eu acordo morrendo de frio. Mas de todo o jeito... não tinha coisa melhor que chegar em casa e ver ela dormindo. Aproveitei a situação e deitei bem de mansinho. Nada pra provocar uma situação. Coloquei ela com a cabeça no meu ombro e fingi que nada tinha acontecido. Mas mulher é mulher, neh?! - “Oi meu amor!” - “Tudo bem meu anjo?!” - “Tudo ótimo. O vôo chegou no horário e vim pra casa mais cedo!” - “É eu percebi. Dorme meu amor... Você deve estar cansada. Amanhã a gente conversa mais”. Ufa!!! Missão cumprida. Nem sinal de qualquer interrogatório. Ela começou a cochilar e ela hoje, só amanhã! Hehehehehehehe - “Onde você tava?” Não sei se era apenas sono ou alguma tática mas ela conseguiu fazer essa pergunta inapropriada ainda dormindo e com a cabeça no meu peito. Como se tivesse perguntando “Que horas são?”. Não dava nem pra acreditar! - “Eu?!” - “Rocco!” Era sono mesmo... esse “Rocco” dela é sempre enérgico e com os olhos arregalados. Que nem uma mãe brigando com um filho! Dessa vez ela falou um “Rocco” enroscado... de olhos fechados... enérgico, mas não forte. - “Ah Carol... eu pensei que você ia demorar mais e resolvi passar no Corrupto.” Infeliz!!! Por que tem sempre que abrir a boca e contar tudo?! Falasse que tava trabalhando! Ela sabia que você tava lá! Ela só não queria que você a enfrentasse. Só isso! Nada mais... Além de ir, ainda assume?! Ta querendo realmente enfrenta-la! Fui, assumo e não to nem ai... era exatamente isso que ela não queria... imbecil! - “Então você tava naquele lugar de novo?!” Isso ela terminou de falar já quase de pé... abotoando o pijama e com a cara mais amarrada do mundo. - “Sabe o que é...” - “Não quero saber Rocco! É sempre assim... a gente combina as coisas e você não faz!”. - “Você nunca me entende né?! Você entende o que quer e do jeito...” - “Rocco, não quero saber suas razões! Eu não quero mais tentar entender você! O mundo não gira em torno do seu umbigo!”. Uau... ela tava realmente muuuuito nervosa. E eu não tava em condições pra continuar a conversa. - “Então você vai virar e vai dormir?! Perfeito! É sempre assim, né Rocco?! Sempre! Quando a coisa esquenta você dorme!” Ai... essa doeu. Ela tava realmente motivada a continuar a conversa... e em alto nível! - “Olha Carol! Você some 3 dias... sabe lá Deus o que você ta fazendo com toda aquela gente e quer que eu fique trancado dentro de casa?! E ainda quer falar que eu sou egoísta?!” - “Primeiro, eu não falei que você é egoísta...” - “Não?!” - “Segundo, eu não sumi! Você sabia exatamente onde eu estava e toda a galera a quem você se refere são meus companheiros de TRA BA LHO! Não meus amigos...”. - “Terceiro...” - “Quarto, quinto, sexto, sétimo... Ta tentando me ensinar a contar?!” - “Urrrrrh! Você consegue me deixar extremamente nervosa! Olha a hora, Rocco! Olha a hora!!! Você só me causa problemas!” Esqueçam todo aquele papo de paz ao chegar em casa! Paz mesmo é chegar até o sofá... Levantando... - “Que é?! Onde você vai?!” - “Para algum lugar longe o suficiente para não te causar problemas, Carol! Por enquanto, pra sala. Indo pra lá eu elimino esse seu problema pra dormir. Depois eu me viro pra eliminar os outros!”. - “Rocco! A conversa não acabou!” - “A é, Carol?! E o que você quer que eu faça agora? Deite, role, lata... o quê?!” Silêncio infernal! Odeio esse silêncio de fim de briga! Sempre faço uma cara de “O que você quer que eu faça, meu amor” mas com um ar de insatisfeito... um canto esquerdo da boca puxado, olhos pra baixo, sobrancelha direita levantada e uma leve jogada de cabeça pra esquerda. Ah... o som de estalinho com a boca. Típico do “Fazer o que né?!”. Não poderia ser diferente hoje. Mesma cara... e mesma retirada. No fundo o som do corpo dela se jogando na cama com raiva... e um pouco depois o choro reprimido. Ahhhhh... inferno de situação!
Escrito por Renato Mullinari às 15h39
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Odeio dormir no sofá! Odeio! A
sala é clara demais... e toda vez que durmo lá... não durmo bem. Tenho essa
dificuldade com claridade! Principalmente de manhã. Já tava até pensando
como seria a droga do meu dia amanhã... - “Rocco, vamos pra cama.... Amanhã
a gente conversa sobre isso!” Puxa... justo agora que já tava quase pegando no
sono! Por que ela simplesmente não dormiu?! - “Não tem o que conversar,
Carol! É sempre a mesma história... você me trata do jeito que você quer. E acha
que o teu salário de chefe te credencia a isso! Você ta começando a acreditar na
mentira que você mesmo conta!” - “Que mentira, Rocco?!” - “Ah... deixa
pra lá... eu só quero dormir, Carol. Vai pra cama, vai!” - “Que mentira?
Agora fala... Vai ficar insinuando e..” - “Oh Carol, não sou obrigado a
ficar agüentando você me tratar do jeito que você quer só porque você ganha mais
do que eu!” - “Te tratando do jeito que eu quero?! Você chega 1:00 hora da
manhã em casa... bêbado... e ainda quer achar que ta certo?! Que mundo você
vive, Rocco?!” - “...” - “Eu tava em outro Estado... longe da minha
casa... longe do meu marido... trabalhando que nem uma loca e quando chego em
casa isso?! Você realmente acha que eu mereço?” - “...” - “Você acha que
eu preciso disso, Rocco?! Responde!” - “...” - “Você acha que eu preciso
de você?!” Opa! Perai também né... Acho que eu preciso de água... Realmente ela
não precisa de mim.... O que que eu faço agora? Hummm... saída estratégica a
esquerda: cozinha! - “ONDE VOCÊ VAI?!!!!” - “Olha Carol... não precisa
gritar... e nem chorar também... eu só to indo na cozinha pegar água.”. -
“...” - “E tem mais sabe... você não precisa de mim... você não precisa de
ninguém... Você ta comigo por vontade própria... porque de alguma forma eu te
faço bem... Mas se isso não é mais verdade... o que mais eu posso fazer?! A água
não ta mais doce?! É só voar pra outra janela! Eu não posso ser o que não sou!”
AH!!! Sério Rocco?! Pufff
Ah... tem essa conversa da água-doce na
janela... do beija-flor e tal... É coisa da Carol isso ae... Assim que começamos
a namorar ela falava que ela era livre... que todos somos... Que se relacionar é
que nem um beija-flor e um prato de água doce na janela... Enquanto a água
estiver doce o beija-flor volta todos os dias... Se você tentar coloca-lo numa
gaiola... ele deixa de ser um beija-flor e vai se tornar um tipo de periquito
esquisito... e logo morre. Se a água perder o sabor... o beija-flor vai
embora... e se ficar doce demais também. O importante do relacionamento é saber
dosar o doce da água! Bah.... isso até faz sentido... e explica muita coisa de
como começa um relacionamento e de como termina. Mas no fundo é algo muito
cruel. Quem foi que disse que a vida não é cruel?!
Escrito por Renato Mullinari às 15h39
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9
Tic tac... tic... tac... tic... tac… inferno!!! Tic… tac… tic…
- “Ana!”.
Tic… tac… desisto… é sério... eu desisto! Não dá pra ficar do lado de alguém com uma mania tão angustiante! Mesmo que você queira ajudá-la. Não rola!
- “Onde você vai?!”.
- [Tomara que a porcaria dessa caneta quebre no meio... o tubo de carga também e a tinta espirre por toda a sua blusa branquinha... Tomara que você arrume um cara bem chato que não deixe você olhar pro lado e conversar com ninguém!!! Assim você não enche o saco de mais ninguém!] “Olha... tua situação é bem complicada... e eu até te entendo... sério mesmo! Não deve ser fácil! Mas você precisa se ajudar também né?!”.
- “Mas eu tenho feito tudo que você me fala!”.
- [Aeh?! Então corre e se joga pela janela! Vai... rápido! Um, dois, três e já!] “Não é essa a questão!”.
- “Então é o que?! O que eu tenho que fazer?”
- [Gostar mais de você?! Que tal?! Dar um pé na bunda desse vagabundo?!] “Sei lá Ana, analisar melhor a situação e ver o quanto essa relação é boa pra você... Escuta... eu tenho uns relatórios pra terminar... passei aqui pra ver como você estava” [E ver se você estava com aquela saia deliciosa que eu te vi semana passada] “Mais tarde a gente conversa de novo, tá?!”
Tic tac... tic... tac...
- “Ana...” [Pelo amor de Deus!!! Para com essa porcaria!!! Larga essa caneta se não eu vou enfiá-la na sua garganta!!!] “Não precisa ficar nervosa... tudo vai ficar bem... c vai ver!”
- “Não sei, Rocco.... não sei...”.
- “Eu tenho que ir ta... alias.. acho que a Dna. Lurdes já até terminou meu café... to indo... Dá um beijo...”
- “Tchau Rocco... passa aqui depois, ta?!”
- [C tá maluca?! Pra você me infernizar com suas histórias e com essa maldita caneta?! Nem que você estivesse pelada!] “Tá bom Ana... tchau... bom serviço!”.
Às vezes me assusto com o quão sacana eu consigo ser... fico imaginando se uma dessas mulheres me dessem bola... como que eu reagiria! Se eu seria romântico e carinhoso como sempre... ou se seria como os namorados delas. Quem faz o cafajeste, o instinto ou a situação? Essa daí é um exemplo claro de que a situação, se não faz, favorece a índole do rapaz... O namorado dela já deixou ela falando várias vezes... Ela já pegou ele em situações embaraçosas mais vezes que eu consigo me lembrar... e mesmo assim ela insiste que o cara é um bom rapaz! Vai entender... ela diz que ele a adora... faz tudo por ela... mas tem esse problema.... e que juntos estão tentando resolver... Juntos?! Hahahahahahahah. O grande problema é que ela insiste em ficar me envolvendo nessa história... me perguntando como que um homem pensa... como que ela pode resolver isso... Sei lá como que o namorado dela pensa! De certo ele deve pensar como eu... que se dá pra aproveitar a situação, ótimo! A diferença é que ele consegue fazer isso e não ficar com nenhum pingo de remorso... é a nossa diferença... mas como que eu vou explicar isso pra ela?! A única coisa que ela consegue enxergar é a “quantidade de roupa que dá pra lavar no tanquinho da barriga dele!”... puff... agora me diz se eles não se merecem?! Na verdade eu acredito que cada um tem exatamente aquilo que merece!
Que nem eu...
Escrito por Renato Mullinari às 13h59
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- “Obrigado Dna. Lurdes... o café está uma delícia!”
- “Obrigado meu filho...” Ah... que voz deliciosa dessa mulher... sabe aquela voz de mãe! Ou avó?!...
- “A Carol foi embora esse fim de semana, Dna. Lurdes...” Talvez até por isso eu me sinta tão à vontade pra falar dos meus problemas com ela...
- “Ah... que pena, meu filho... Mas não fique preocupado não... cês são tão lindinhos... daqui a pouco vocês se acertam... a vida é assim mesmo... cheia de detalhes... Fica chateado não, tah meu filho?! Já volto! Vou levar água ali na sala... Já volto” Mas sempre sinto que falta alguma coisa... que ela poderia expressar muito mais sabedoria... me dizer coisas que só com a idade eu iria saber... mas infelizmente isso nunca vem...
Queria ser essencialmente mau... ou essencialmente bom... O que me mata é essa indefinição! Não consigo ser cruelmente egoísta e nem ingenuamente altruísta... e isso acaba com a minha sanidade/insanidade... Me falta coragem para ser mau ou conhecimento para ser bom?! Já nem sei... mas posso resumir a minha vida na busca dos dois... coragem e conhecimento... e algum prazer quando sobra tempo... e he he he he...
Escrito por Renato Mullinari às 13h58
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O Márcio era realmente um cara bem resolvido... ele realmente não se abalava nunca. Estacionou o carro, pegou as coisas dele e deu tchau pra todo mundo como se nada tivesse acontecido... parecia que ele havia acabado de acordar, como se não tivesse passado aqueles longos minutos escutando o escroto tagarelar e dar em cima da irmã dele... O cara tava em outra sintonia...
Tava pensando nisso quando passei a guaritinha do prédio... gostava bastante daquele caminho até o elevador... Uma passarela de pedra com umas plantas e flores em volta até a porta de vidro fume... o resto é tudo como em todo lugar: pedra, pedra... cinza.. e alguns espelhos... normal... Mas o caminho de entrada era realmente muito bom! Sempre que podia descia lá pra fumar.
Mal cheguei na minha mesa e o telefone tocou... era a Carol... queria conversar na quarta a noite...
Vai entender... me liga na segunda... nem deixa eu digerir um pouco o assunto todo e já me liga... com uma voz de como se não me conhecesse e até um pouco de arrogância... Queria falar comigo... falar o que?! E outra... quarta?! Ela me liga na segunda pra marcar uma “reunião” na quarta?! Tava realmente afim de me aporrinhar... e eu tenho que dizer que ela conseguiu!
Contra aporrinhação nada melhor do que “umas” no Bar do Corrupto lá no centro. Lugar espetacular: mesas, quase sempre vazias, uma máquina de tocar música que, pelo amor de algum santo, sei lá, sempre tinha uma boa música tocando. Adoro blues... e lá no Corrupto sempre tinha um bom blues tocando na maquininha...
Mesas de sinuca... máquinas de fliperama... alguns bêbados e as primas de sempre. Sempre escuro... sempre! Não importava a hora do dia que você chegasse lá... iria estar um escuro de doer as vistas... essa era a porcaria do bar do Corrupto.... o melhor lugar do mundo pra se estar quando alguém te aporrinha pra valer!
Costumava ficar no banquinho que tem no fim do balcão.... depois da curvinha... mas ultimamente tenho me sentado nesses banquinhos mais altos do meio do balcão. No bar do corrupto todo mundo é “Ladrão”, sendo assim, o ladrão que me atende, sempre me atende mais rápido quando estou nos banquinhos do meio... e sabe-se lá o por quê!
- “Dia difícil, ladrão?” [Ele poderia pelo menos ter parado de limpar a água que estava no balcão assim que eu cheguei]
- “E que dia que não é?! E com você tudo bem, ladrão?” Nada como uma resposta dessas pra acabar com qualquer conversa não?! Normalmente as pessoas não estão muito dispostas a falar de si.
- “Tudo ótimo! E hoje, o que manda?”
- [Pare de jogar água na minha calça!!!] “Hummm, acho que uma dose de rum com vodka... é isso ae! Rum com vodka!” [Ótimo... nada de água na minha calça... pego minha dose e sento numa das mesas ou vou pro meu canto do balcão].
- “Ta ai sua dose... Hey ladrão, a tal da Larissa andou perguntando de você esses dias”.
- “Ela ainda vem aqui é?! E o que ela perguntou de mim?”
- “Queria saber se você ainda estava ‘casado’... hehehehhe ”.
- “Sei como é... e você falou o que?”
- “Só disse que você anda vindo mais pra cá do que de costume... hahahaha” Olha só! O ameba do garçom do Corrupto é um cara observador... e até consegue fazer algumas associações “um pouco mais complexas”... É... esse cara me surpreendeu hoje!
- “E o que ela disse?”
- “Sorriu, pagou a conta e saiu.”
- “Bom saber disso...” Bah.... como se eu fosse fazer alguma coisa... No fundo eu gostava só de saber que alguém estava afim de mim... acho q jamais sairia com a Larissa... não que ela não fosse meu tipo... só nunca rolou uma química maior... algo que chamasse minha atenção... sei lá! Que coisa hein... a Larissa perguntando de mim...
De qualquer forma, peguei minha dose e fui sentar no meu canto do balcão... era meio que meu refugio naquele lugar...
Escrito por Renato Mullinari às 11h27
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“Unchain my Heart”... Nada como uma música dessa pra animar a noite, não?! Hahahaha... Adoro Ray Charles... juro que poderia passar uma noite toda escutando só músicas dele... mas “Unchain my Heart” foi mancada das grandes!
Fiquei uns cinco minutos parados... ae não agüentei e fui sentar na mesinha.... Tinha que colocar meus pés em cima da mesa! Vai entender... eu tenho umas necessidades bem estranhas.... Fiquei olhando pra janela: dava pra ver os carros passando lá embaixo... entrando no túnel e tudo. Aquele bar era um lugar legal.... escuro... meio sujo... mas dava pra ver a cidade como em nenhum outro lugar... E hoje era tudo que eu precisava mesmo: um lugar escuro, rum com vodka, cigarros, vários blues, e a vista da cidade quase toda.
Tenho esse costume de ficar me analisando... onde que eu errei... os padrões de comportamento que me levam a cometer os mesmos tipos de erros... e assim... não to falando daqueles erros que a maioria das pessoas acha que é errado... eu to falando das coisas que eu faço que me levam pra longe das coisas que eu quero. Fico assim por horas... às vezes me crucificando.... e as vezes tentando me consolar... Meu lado racional é meio emotivo... mas só as vezes! Fiquei olhando pra janela com os pés em cima da mesa... fiquei enrolando guardanapos e jogando no vidro quase q o tempo todo...
Queria entender por que tanto desencontro acontece na vida da gente...
Tinha quase que certo que iria passar todos os meus dias, bem ou mal, ao lado da Carol... A gente se entendia bem pra burro... só que tinham esses problemas... Várias vezes eu ficava imaginando nós dois bem velhinhos e ela chutando minha bengala pra me sacanear... Quando tava de bom humor era a pessoa mais extraordinária do mundo... não conseguia imaginar uma vida diferente... sabia que a gente iria ter vários problemas... éramos muito diferentes, mas no fundo eu acreditava que de alguma forma a gente iria superar...
Eu fiquei lá tacando os papéis e de repente eu tive uma sacada... nem era tão sacada mas aquela hora eu entendi... Talvez eu tenha acompanhado a nossa história através só da minha janela... eu nunca parei pra tentar entender como que era a vista da janela dela!
Logo depois disso fiquei uns 15 minutos me chamando de burro!!! Lembrei do meu “casinho” com a Gabi que só existia na minha cabeça.
Olha só... a Carol era extremamente confusa e instável... eu tava sempre lá... tentando compreender os problemas e traumas dela... e de repente eu tava aqui me crucificando porque eu não parei pra tentar entender como ela me enxergava!!! Sei lá.... comecei a pensar que esse negócio de relacionamento tem que ser mais natural... do tipo eu sou eu... você é você.... e pronto... a gente se gosta... vive junto e ta tudo bem. Sem essa de teses e estratégias sem fantasiar que nem eu fazia com a Gabi. O erro que eu cometi foi super parecido com o a história da Gabi... eu imagino algo... queria tanto... que de alguma forma isso começou a ser meio que real pra mim. Nesse ponto eu me perdi todo no que tava pensando... levantei e fui pegar mais uma dose. Eu realmente adorava esse lugar....
Escrito por Renato Mullinari às 11h27
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Respire... lenta e profundamente...
De novo....
É... assim que eu tava... sentado, com os pés na mesa... completamente relaxado... completamente embriagado dos meus pensamentos quando a porcaria da minha chefe entrou na minha sala hoje de manhã....
Eu sempre tentava dormir quando eu sabia que ela não tava no escritório... Pra minha infelicidade... essa segunda ela resolveu aparecer mais cedo! Gente chata sempre sabe quando aparecer...
Eu tinha uma pilha de coisas pra fazer... a maioria atrasadas... e naquele momento eu estava dormindo com os pés em cima da mesa.... que momento melhor pra chefe aparecer?!
- “Sr. _____________”
- “Rocco, Paixão... Rocco!” Sabe... até deixaria ela me chamar pelo nome, afinal ela é de certa forma, mesmo que não diretamente, minha chefe e chefe pode tudo... mas não poderia perder a oportunidade de usufruir dos bons costumes da empresa que mandava que nos chamássemos pelo sobrenome... no meu caso Rocco.... e no caso dela “Paixão”.... “Silvia Paixão”... Obrigado Deus.... muito obrigado por não ter dado outro sobrenome ou um marido pressa mulher.
- “Tudo bem... Rocco... estou precisando daquelas planilhas que te pedi na sexta!”
- “Sabe Paixão, [hahhahahahahhahah] trabalhei esse final de semana nisso... e temos alguns problemas que vamos ter que discutir com o pessoal de vendas.” Bingo! Vendas! Eles estão sempre ocupados demais pra conversar com a gente... isso me dava um tempinho pra terminar as porcarias das planilhas
- “Mas você poderia me adiantar os resultados?”
- “Claro... em 5 min eu te mando por email, pode ser?!” [Hahahaha 5 minutos! Talvez dias!]
- “Tudo bem... vou entrar em uma reunião agora... daqui a pouco eu olho meu email.” [Ta... e eu sou o Bozo!]
- “Tudo bem, Paixão! Já estou mandando! Prometo!” [Todo trapaceiro usa esse termo: Prometo]
Era 11:00 horas... ela ia entrar em uma reunião e ia olhar meu email antes do almoço?! Sei! Isso ia me dar pelo menos umas 2 horas pra fazer qualquer coisa. Resolvi dormir uma parte desse tempo... Coloquei os pés na mesa... liguei o rádio e fiquei olhando a janela... só imaginando o que ia fazer a noite... a única coisa que passava pela minha cabeça era o bar do Corrupto. Ah o bar do Corrupto... adoro esse lugar!
Escrito por Renato Mullinari às 11h26
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São dez pras seis... eeeeisssss... hahahaha até queria ter que acordar esse horário todo dia... ia me sentir super identificado com uma música que eu gosto muito... muito mesmo! Mas bem... não é esse o caso! Dez pras oito e a porcaria do relógio gritando... minha mão... relógio gritando... minha mão... a porcaria do relógio gritando e enfim eu de pé... em cima da droga do relógio! Heheheheh... Mas isso é só força de expressão... eu nunca fico de pé depois que eu acordo. Eu sempre escorrego da cama aos poucos... primeiro as pernas... ae fico ajoelhado no chão e meio que deitado na cama. Já até pensei em colocar uma câmera só pra ver a cena! Depois que o relógio toca novamente é que eu vou começar a levantar... até ae já devem passar das 8:15.
Eu juro que queria ser dessas pessoas que ouvem um barulhinho e já acordam semi-prontas para trabalhar. Queria a receita.... queria mesmo. Eu nunca me sinto pronto pra trabalhar... nunca... sou um amante fervoroso do ócio... ah... como eu amo o ócio... e não é por preguiça não... é pura devoção mesmo... Mas geralmente não me dou muito bem com essa história... por isso que eu queria ser diferente... Sempre eu quero ser diferente... sempre!
Eu descobri que o problema todo de acordar está relacionado com o fato de ter que ir trabalhar depois... sempre que eu preciso acordar cedo... ou dormir pouco... porque depois eu vou fazer alguma coisa realmente excitante... eu acordo rápido e super disposto... nunca entendi... mas parece que o nosso cérebro é muito mais coerente do que nós... eu não gosto de ir trabalhar... então pra que acordar bem e disposto?! Ele conspira a meu favor... contra a minha própria vontade... E é impressionante como ele me conhece bem!
O ruim disso tudo é que se eu tentar dormir cedo ele não irá me deixar... porque no fundo ele sabe que eu sou um grande apreciador da noite... e que o dia pra mim nem é tão interessante assim....
Então me diz: pra que acordar bem, pra fazer algo, durante o dia todo, que no fundo você detesta?!
Normalmente quem me ajudava com essa história de levantar era a Carol... mas ela nem sempre era tão convincente... e o pior... ela ficava super ressentida de eu “não dar muita atenção pros compromissos dela.” Puff... vai entender, né?! Vai entender... quem em sã consciência, às 7:50 de uma segunda-feira, está preocupado com os problemas de alguém que não seja ele próprio?! Não se trata de egoísmo... é uma questão de puro reflexo por conforto... O homem tem uma incrível demanda por conforto... e eu não sou exceção! Na verdade... o ser mais egoísta que existe no mundo é um homem acordando, mas uma mulher ressentida não fica atrás.
Depois de um tempo... ela poderia ficar horas escutando meu despertador tocar sem ao menos desligá-lo enquanto eu dormia profundamente. Ela sabia que poderia perder a droga do meu emprego se chegasse atrasado... mas era uma questão de honra feminina! Se eu não prestava a atenção nela... pra que me ter acordado?! E era sempre assim... eu acordava atrasado e irritado porque ela não tava nem ai pra mim... e evitava ela o máximo possível... ela ficava irritada porque eu não estava nem ai pra ela... e cada vez fazia mais pirraça... Ficava imaginando o dia que eu iria acordar com a porcaria do relógio estalando na minha cabeça... a louca gritando comigo porque eu não acordei pra desligá-lo e isso estava atrapalhando o café dela ou algo assim... juro que todo dia de manhã quando eu ouvia o despertador... eu imaginava isso...
Na verdade eu escutava... mas não sei bem o porque eu não acordava... era um escutar mas não escutar... bem daquelas rimas de Camões... as vezes eu nem tinha certeza que ele estava realmente tocando... ou se realmente eu estava ali em casa... essas coisas de gente dormindo... hahahha... Mas se tem uma coisa que eu tinha certeza é que um dia eu ia acordar com o despertador na cabeça... e não assim parado e balançando em cima de mim... mas com ele vindo voando do outro lado do quarto... mais especificamente... lá da porta do quarto... voando... girando... girando... caindo... e acertando em cheio a minha nuca... ou a minha cabeça mesmo! Aff... posso até escutar o barulho dele batendo na minha cabeça... fico com raiva só de pensar!
E foram assim nosso dias de manhã... comercial de margarina nem pensar! Nossas manhãs mais pareciam um comando policial... você vê que vai passar por eles... sabe que no mínimo vai perder tempo... e tudo é tenso... muita tensão.... tudo que você quer é passar por aquilo ileso... você abre os vidros... faz cara de desinteressado... como se tudo estivesse normal... tem gente que até enfia o dedo no nariz pra poder demonstrar naturalidade total.... tudo que você quer é passar por tudo isso ileso... Era assim q eu me sentia... todas as manhãs... todas!!! Até sexta-feira passada... hehehehhe sexta foi tudo diferente!
Escrito por Renato Mullinari às 11h03
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Pra variar eu acordei atrasado demais... e pra variar ela já tinha tomado banho e estava terminando o delicioso café que ela tinha preparado só pra ela... Na verdade eu acordei com os gritos dela... Puxa... como ela gritava alto... ela tinha uma voz e tanto... e sempre me acordava assim... Enfim, aquele dia eu resolvi não tomar banho... tava atrasado realmente... só escovei os dentes e troquei de roupa mesmo e antes de sair eu dei um tchau da porta da cozinha mesmo... e ela nem respondeu... tava lavando alguma... sei lá... Eu nunca dava tchau quando estava bravo... e ela sabia q eu estava bravo... eu simplesmente ia embora... mas aquele dia eu resolvei falar tchau.... nem sei bem o porquê... mas eu falei... e ela ficou quieta... Isso me irritou profundamente... mas ao invés de gritar e começar a discussão nossa de cada dia... eu simplesmente sussurrei...
- “Além de egoísta é mal educada também!”
Só que eu falei isso num tom de tristeza... decepção... de quem realmente esperava aquele maldito tchau! Ela não falou nada... Sinceramente nem sei se ela olhou pra traz, mas com toda certeza, isso fez toda a diferença, sexta! Mas que pena que foi só na sexta que tudo isso aconteceu.... Ela já se foi e hoje é segunda... Hoje é segunda! E ela já se foi... Mesmo depois do que aconteceu na sexta... ah... foi tarde!!!
Não tinha muito o que fazer... sem escolhas... Assim que consegui levantar da cama fui seguindo o ritual diário: banheiro, preparação da arcada dentária, lentes... Nada mais chato que isso. Sempre fico pensando que a gente poderia já acordar pronto... Peguei a mochila e uns sucos na geladeira... acho que eu já estava na terceira esquina quando eu me dei conta que tava realmente acordado... também... nem tinha como... tava passando na porta da casa da Gabi... sempre fui meio que apaixonado por ela e coisa e tal... mas de uns anos pra cá já tinha até esquecido... ficava sempre aquela coisa meio que incomodando... mas não chegava a ser um tipo de paixão... só uma admiração mesmo...
A casa dela tinha uns arbustos baixinhos... mas não muito baixo... bem cheios... cortados bem quadrados, mas dava pra ver o quintal da casa dela todinho. Ela tinha vários cachorros... mas na verdade nem eram dela mesmo... a mãe dela que gostava muito dos cachorros e cuidava deles na verdade, mas a Gabi insistia que eram dela... mas isso na época que a gente conversava mesmo...
Passei contando as divisões da calçada e meio que com uma vontade de ir pulando as divisórias... elas eram de grama... uma grama bem verdinha... Sempre gostei muito desse lugar do bairro: cheio de árvores nas ruas... casas bonitas... nem parecia que a gente estava realmente naquele bairro... eu acho que era a rua mais bonita da região. Eu parei em frente à árvore que tem na calçada dela e fiquei lembrando quando a gente era bem novos. A gente costumava comprar sorvete e ficar conversando ali na frente muito tempo. Quando ela ia embora eu subia na árvore pra poder ficar olhando ela no quarto dela... Normalmente eu ia embora me sentindo um idiota total... Odiava pensar que ela jamais faria algo do tipo por mim... Era um tipo de paixãozinha platônica... e eu me sentia muito mal por isso... é mais ou menos como se ela me tivesse nas mãos...
Todos os outros garotos jogando bola... e eu lá... em cima de uma árvore olhando uma menina que nem queria nada comigo... Talvez todas as vezes que eu a via no telefone ela estivesse falando com algum garoto que ela gostasse de verdade... No fundo ela gostava só da minha amizade e pronto... eu era uma boa companhia e só!
Os cachorros estavam latindo demais... e eu tava com medo de alguém aparecer e me ver olhando pra antiga janela do quarto dela... Sai andando um pouco mais rápido... eu tinha combinado com o Márcio no ponto e ele era o tipo de cara que iria embora sem me esperar e sem o menor remorso... O Márcio é o cara mais bem resolvido que eu conheço... impressionante... ele poderia te largar com cara de bobo em qualquer compromisso por um atraso de apenas alguns minutos... Nesse ponto ele é bem resolvido mesmo... Tava tudo tranqüilo... quanto eu cheguei lá ele ainda não tinha passado... e eu só sabia isso porque o outro cara que ele dava carona ainda estava lá... Eu nem sei o nome dele porque nunca gostei muito dele mesmo...
Esse cara era do tipo “bonitão-bobão” então eu nem me dava ao trabalho de conversar com ele... Ele tava sempre com aquele boné e uma das pernas da calça rasgada. Vai entender... ele tinha pinta de ser um cara cheio da grana, na verdade não ele, mas os pais... O fato é que ele sempre tava rasgado e com um aspecto de sujo... mesmo tendo muito dinheiro. Mas deve ser alguma forma de estilo... Isso eu admirava nele: você tem que estar muito confiante pra sair de casa com uma calça rasgada...
Escrito por Renato Mullinari às 11h02
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Quando eu estava atravessando a rua em direção ao ponto eu balancei a cabeça cumprimentando esse escroto e fui sentar em um dos banquinhos... aqueles banquinhos duros e coisa e tal.... que fica embaixo de um toldo pra ninguém se molhar enquanto espera o ônibus, ou carona ou sei lá... Eu sei que o Márcio tava demorando muito e eu já tava vendo a hora que o escroto iria vir conversar comigo. Ele ficava balançando o pé de um lado pro outro.... Arrumava o boné... uma... duas... três vezes... Esse cara definitivamente era um cara ansioso. E eu já estava imaginando que ele iria querer quebrar o “gelo”... e eu até que estava certo... mas hoje eu estava com sorte mesmo... porque na hora que ele se animou de conversar comigo o Márcio chegou... É... hoje era o meu dia de sorte! Pelo menos foi até aquele momento... Hoje o Márcio tava dando carona pra irmã dele, portanto, tive que ir no banco de trás com o escroto... falando... falando... falando... Eu sempre me questiono como que alguém pode ter tanto assunto assim... logo de manhã... Acho que o cretino já ia dormir pensando nas porcarias de conversa que iria ter pela manhã...
Eu encostei a cabeça no vidro... tava com tanta dor... tanto pensamento na cabeça que não consegui parar com ela em pé... fiquei vários minutos pensando no cheiro dela... na porcaria de vida que eu ia levar pela frente... Não que um homem precise necessariamente de uma mulher pra viver... O fato não é esse... É que as coisas começam a acontecer numa velocidade muito maior do que o normal quando você está só... Até quando você está sozinho: os meses passam e você nem se dá conta de quantas coisas estão acontecendo ao seu redor... Fiquei olhando o Márcio dirigir... Eu acho que é a mesma coisa de quando você está dirigindo: quando você está sozinho você até vê as coisas passarem mas sua atenção está nas “possibilidades”... Quando você está com alguém é um tipo de segurança... você não tem que se preocupar com esse lance de arrumar alguém... ae você tem tempo pra observar outras coisas que acontecem ao redor.
O pior é que esse sentimento... essa atenção toda as “possibilidades” é só no começo... Nesse começo o tempo passa absurdamente rápido... Depois... depois você se acostuma com o fato de estar só... e nem toda oportunidade é uma possibilidade... Você para de prestar a atenção nisso e volta a olhar o mundo... O ruim disso... é que sempre fica uma sensação de vazio... que é bem diferente da sensação de quando você está com alguém... Sempre rola uma sensação de que você tem coisa demais... Acho que essa é a dinâmica que faz com que as pessoas comecem e terminem relacionamentos...
Eu encostei a cabeça no vidro exatamente por isso... porque eu sabia que eu ainda tava nessa roda de rato... começa... coisa demais... termina... necessidade... vazio... começa... e assim vai! Primeira... segunda... terceira... freia... primeira... segunda... terceira... vira... freia... assim... desse jeito... No fundo o que muda é a paisagem!
Eu já sabia o que ia passar... tava extremamente desanimado... morrendo de sono... e o cretino falando aos montes... acho que ele queria na verdade era chamar a atenção da irmã do Márcio...
Tava na cara que até o Márcio tava já de saco cheio daquele papo besta sobre as soluções da violência! Bah!!! Que idiota que discute isso logo de manhã?! Que ser egoísta que quer saber sobre o que acontece com outro alguém e tentar ajudá-lo? Tenho certeza que de manhã ninguém quer saber de mais ninguém!
Ah... pensa bem... soluções pra violência!!! Acho que ele ainda tava alucinado da cola que ele cheirou ontem a noite! Tinha que pensar em alguma coisa que fizesse o idiota parar de puxar assunto... vai saber qual seria o próximo né?! Paz Mundial?!
- “Então você acha mesmo que o fortalecimento da polícia resolveria tudo?!” Eu nem levantei a cabeça... do jeito que tava eu falei... o idiota até se assustou em ouvir minha voz...
- “Não é só o policiamento... teríamos que investir em educação também” [Pronto... ta aí um forte candidato pras próximas eleições].
- “O policiamento pro curto prazo... e a educação a médio e longo prazo” [Olha o que to falando... um administrador nato!].
- “E por que nunca ninguém pensou nisso antes?” [Te peguei idiota]
- “Na verdade, as pessoas até pensam... mas quando chegam no poder elas vêem que as coisas não são tão fáceis assim, né?!”
- “Quando você falou me pareceu bem simples!”.
- “Não é isso... na verdade... o grande problema é a corrupção” [Meu deus... o idiota tava conseguindo puxar um outro assunto].
- “O grande problema é o homem... tira ele... e acaba corrupção, falta de educação e violência...” Pronto... fim de conversa... e não falei isso só pra terminar a conversa... é o que eu acredito mesmo! O homem é uma praga pra ele mesmo... O bom desse tipo de afirmação é que ela é tão ampla que dá margem pra tanta interpretação que pode fazer um idiota desse ficar pensando uns 3 dias.
Depois de um “é” demorado e reflexivo o cretino ficou quieto uns 5 minutos... Ae começou a falar de uma empresa do outro lado da rua que tinha sido assaltada ontem mesmo... Ai ai... do jeito que tava só fechei os olhos e tentei pensar nas crianças do parque! Não consegui... minha ultima saída foi começar a entender o sentido da vida... ufa... pelo menos deu pra chegar no trampo com uma saúde mental um tanto que conservada... Toda segunda eu esqueço o quanto esse cretino é cretino! Acho que o final de semana realmente dá uma limpada na mente.
Escrito por Renato Mullinari às 11h01
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